Afinal, quem é Antônio LaCarne?

O talento do escritor cearense Antônio LaCarne é algo raro nos dias de hoje. Em tempos de grandes nomes e pequenos talentos, o jovem escritor tem um perfil bem mais modesto que as subcelebridades literárias.

Fora do perfil comercial e, sejamos sinceros, cafona, Antônio não vende a alma ou a dignidade literária – seja lá o que permeie sua estrutura existencial – por meros 15 minutos de fama. Não, Antônio não é um marxista ou idealista de Facebook, mas as contas estão pagas e sua vergonha na cara é intransponível, inabalável… impenetrável.

Neste momento você já deve ter notado o quanto eu admiro o Antônio, mas esse sentimento nós teremos em comum quando você também for um de seus leitores FIXADOS (calma que já vai fazer sentido). Talento e muito deboche fazem do escritor uma das vozes mais peculiares da literatura contemporânea alencarina (chamar cearense de alencarino é fino).

E o que LaCarne já escreveu? Vejamos:

Antônio é autor de “Elefante-Rei: Poemas B” (CBJE, 2009), “Salão Chinês” (Patuá, 2014), “Todos os poemas são loucos” (Gueto Editorial, 2017) e Exercícios de fixação” (A. R. Publisher, 2018). Também participou das antologias “ A polêmica vida do amor” (Oito e meio, 2011), “A nossos pés” (7Letras, 2017) e “Golpe: antologia-manifesto” (Nosotros Editorial, 2017) e “Rotatórias” (Sem Título Arte, 2018).

Exercícios de Fixação, seu livro mais recente, traz 17 contos bem diferentes entre si, além de trazer os aforismos poéticos que são marcas registradas do autor.

Exercícios de Fixação por Antônio LaCarne.

Conversamos um pouco com o escritor cearense Antônio LaCarne sobre sua obra, sua persona e o novo livro “Exercícios de Fixação”. Confira:

Para quem você escreve? A sua obra, como um todo, tem um público alvo?

Na verdade, escrevo para mim mesmo, como válvula de escape e como forma de expressão, diante da realidade que só oprime. Mas é claro que fico muito feliz quando percebo que as pessoas gostam dos textos ou se identificam. Todo mundo que escreve quer ser lido, porém não é minha maior motivação escrever com o intuito de agradar as pessoas. Não há criatividade que resista se você se concentra no modus operandi. É preciso saber dançar conforme a música, porém, melhor que isso, é seguir seus próprios parâmetros, genuinamente, sem forçar a barra, sem self-marketing tendencioso, e, absolutamente, sem pretensão descabida. Acredito que todos nós precisamos pensar no legado, e se a obra foge do senso comum e do clichê.

Há alguma relação entre seus livros ou cada um surge de uma inspiração ou objetivo diferente?

Cada livro desempenha um papel. O primeiro era poesia, o segundo foi um livro de prosa poética/fragmentos, e “Exercícios de fixação” são contos.

O quanto de Antônio está presente neste novo livro e quais as influências do cotidiano na sua obra?

O cotidiano é peça fundamental do que escrevo, e ele exerce uma influência gigante sobre mim. Com o novo livro, optei por fugir da catarse, e me concentrar nas minhas pesquisas e leituras, buscando construir a narrativa sem a obsessão constante de desabafar ou soar confessional. O próprio título sugere, trata-se de um exercício, onde cada texto foi um trabalho árduo de construção das estruturas narrativas, dos personagens e de seus dramas.

A curiosidade não permite que esta pergunta não seja feita: de onde veio a inspiração para “ele” (que não é você) no conto “O Homem de Higienópolis”?

É um conto que fala sobre prostituição e sobre a busca do amor. Por mais que eu brinque, informando constantemente que aquele personagem não sou eu, soou interessante e gerou uma dúvida entre os leitores. O que é mais pessoal nesse texto é justamente a busca desse amor, mesmo em redutos marginalizados, como o centro da cidade de madrugada. O conto trata dessa questão universal que é a solidão e qual meio você se utiliza para se livrar dela.

Seus personagens estão fixados no passado, na solidão, no pênis gigantesco e em várias outras coisas: qual a fixação de Antônio LaCarne no momento?

Minha maior fixação no momento é partir pra verdade. Hoje em dia, todo mundo se considera perdido de alguma forma, e mesmo assim há muita farsa, principalmente nas redes sociais. O que eu mais busco é me manter instigado na minha produção literária, e manter relações sem qualquer tipo de alpinismo social ou interesse velado. Simplesmente não há união entre as pessoas, entre os artistas, tudo é baseado no networking. Acredito que Freud deve estar se remexendo no túmulo, instigadíssimo com tantos estudos de caso em potencial.

Curiosos para conhecer mais sobre o mundo de Antônio LaCarne? Siga seu blog, Instagram e Facebook para doses diárias de deboche e gargalhadas. Em breve o escritor lançará um novo projeto visual para facilitar sua sobrevivência nessa pós-modernidade que oprime.

Posted by Francisco Almeida

Redator e Consultor de conteúdo freelancer made in Ceará.

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